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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Recortes de Mentes e Manias

Recortes interessantes do livro mentes e manias:

Cap 1

Interessante como o conhecimento humano se manifesta em todas as áreas de expressão, pois no início do século passado Freud — pai da Psicanálise — afirmou a mesma idéia com as seguintes palavras: ”Toda pessoa só é normal na média”.

Parece uma grande ”loucura”, no entanto Freud, Caetano e todas as pessoas do planeta temos algo em comum: nenhum de nós possui um cérebro perfeito. Entendendo-se como perfeito o cérebro que produza seus neurotransmissores — nossos ”combustíveis cerebrais” — em quantidades exatas ou iguais e faça com que cada parte exerça suas funções tão bem como as demais, obtendo assim um desempenho máximo em todas elas. Se olharmos bem ao redor, constataremos facilmente essa realidade. Quem não conhece alguém genial na criação de complexos programas de computador, ou mesmo projetos inovadores de engenharia, que, por outro lado, apresenta profunda dificuldade em seus relacionamentos sociais, principalmente afetivos e emocionais?

Podemos concluir que um cérebro perfeito é uma impossibilidade humana. Todos eles têm seus pontos fortes — talentos, dons ou aptidões — e seus pontos limitantes — inabilidades, inaptidões ou ”fraquezas” -, que, com o tempo e com empenho, aprendemos a administrar em nosso próprio benefício.

Outro aspecto — bem mais científico, apesar de menos visível que os exemplos anteriores — que reitera a imperfeição do cérebro humano é a sua idade. Isso mesmo. Para quem não sabe, nosso querido e poderoso cérebro não passa de um bebê na longa história da evolução das espécies. Ele completou 100 mil anos há pouco tempo.

”Velho”, ”velhíssimo”, ”dinossáurico”, ”pré-histórico”... Provavelmente seriam esses os adjetivos usados por um adolescente para definir nosso baby. Mas, se dermos alguns passos, entrarmos em uma locadora e pegarmos o filme O parque dos dinossauros, de Steven Spielberg — um DDA confesso -, veremos que Hollywood, além de lazer, é cultura e informação. Lá se conta um pouco da história dessa geração de répteis fantásticos que habitaram e dominaram nosso planeta por 160 milhões de anos. .

E agora, quem é velho? Nosso cérebro ainda é um bebê lindo e ”fofo” que começa a dar seus primeiros passos nessa tal de história evolucionária. Por isso temos de considerá-lo uma obra em andamento que com certeza será capaz de desenvolver novas funções adaptativas de caráter positivo, que nos tornarão mais eficientes em transcender dificuldades, limites ou mesmo impossibilidades atuais.

Um dos sistemas que nosso cérebro elaborou para tornar a vida de nossos ancestrais mais fácil foi um circuito que lhes tornasse possível a detecção de erros especialmente relacionados à sobrevivência e ao convívio social. No estudo da biologia evolutiva, observamos que nossa espécie criou um sistema que faz com que o indivíduo, ao cometer um erro, seja tomado por uma sensação de grande desconforto. No entanto, com isso o ser humano aprende comportamentos e esquemas cognitivos que lhe possibilitam prever possíveis erros. Isso, aliás, é muito importante do ponto de vista da convivência social. Quem já não cometeu uma gafe e sentiu um terrível desconforto? Sejamos honestos, todos já fomos vítimas de nosso circuito detector de erros.

CAP 5

Fatores genéticos

Antes de querer culpar seus ascendentes, lembre-se de que tudo tem um componente genético, inclusive as coisas boas! E, se você sair por aí culpando as gerações passadas, vai acabar chegando sabe aonde? Penso que em Deus. Então pare com isso, aceite as coisas e tente melhorar o presente.


Fatores psicológicos

Você já parou para pensar quem é você? Na realidade, nós somos nossa personalidade. Mas o que é nossa personalidade? Ela é resultado da interação daquilo que herdamos de nossos pais (nossa genética) com a totalidade de experiências que vamos adquirindo durante toda a vida. Ela reúne todos os comportamentos e sentimentos que desenvolvemos em respostas às circunstâncias da vida. Sua personalidade é seu modo próprio de reagir e interagir com o mundo.

Assim, fica claro que a carga genética é de fundamental importância para a constituição de nossa personalidade. Todavia, nossas vivências interpessoais também influenciam a pessoa que somos e que vamos nos tornando dia após dia. Dessa forma, o ambiente familiar, principalmente na infância, é muito propício a aprendizagens desfavoráveis ou desadaptativas. Pais com comportamento de medo e ansiedade têm grande probabilidade de ensinar aos filhos padrões semelhantes em função da exposição constante a esses padrões. Alguns pesquisadores acreditam ainda que o castigo excessivo por erros cometidos pode predispor pessoas a dúvidas obsessivas e rituais de checagem. Crescer observando os pais ou irmãos executando rituais provavelmente leva a seu aprendizado, em maior ou menor extensão. Entretanto, a maioria dos pesquisadores concorda que só desenvolverá TOC, de fato, o indivíduo que for geneticamente predisposto a apresentar esse transtorno.


CAP 6

O TOC SOB A LUZ DA PSICOLOGIA EVOLUTIVA

Uma das mais fascinantes ciências dedicadas a estudar e compreender o comportamento humano é filha da psicologia cognitiva1 e da biologia evolucionária2: a psicologia evolutiva (também chamada de psicologia evolucionária), que busca explicar comportamentos e funcionamentos mentais do ser humano sob a ótica da adaptação e da seleção natural. De acordo com a psicologia evolutiva, a seleção natural não explicaria somente adaptações fisiológicas e anatômicas fundamentais para a sobrevivência das espécies, mas também padrões de comportamento e, no caso do ser humano, de funcionamento mental.

Como um exemplo bastante simples e corriqueiro, podemos citar a conhecida ansiedade. O que é ansiedade? Uma sensação desagradável e angustiante, que pode variar de um mal-estar a um ataque de pânico? Sim, mas o que é realmente a ansiedade, por que todas as pessoas normais a têm — ainda que em diferentes graus —, qual é a função dela e seu valor para nossa sobrevivência, assim como de outras espécies? É esta a pergunta que nos

1. Definida como a mais poderosa teoria da mente já desenvolvida, a psicologia cognitiva transformou a psicologia, antes um conjunto vago de idéias pouco claras, em uma verdadeira ciência. A psicologia cognitiva parte de dois pressupostos básicos: de que as ações e comportamentos são causados por processos mentais e de que o cérebro humano é comparável a um computador (não no sentido que conhecemos, da máquina, e sim computador como um conjunto de operações para processar informações, capacidade de computação de estímulos e de dados do ambiente).

2. Ramo da biologia que explica o surgimento, evolução e modificação das espécies de base marcadamente darwiniana. No que tange ao ser humano, a biologia evolucionária entende a espécie humana como descendente de espécies de primatas que, em última instância, compartilha um mesmo ancestral comum com todos os seres vivos. É calcada nos conceitos de hereditariedade, mutação e seleção natural. interessa. Certamente a ansiedade é um dos mecanismos de adaptação ao ambiente mais eficazes e bem-sucedidos, pois é compartilhado por uma infinidade de espécies, basta lembrarmos do gato que se arrepia à ave que levanta vôo assim que algo não familiar é percebido por ela. A ansiedade vem acompanhada da emoção do medo, que, embora não seja enaltecida em uma sociedade em que as pessoas sonham ser fortes e poderosas, é uma das emoções mais imprescindíveis a nossa vida.

Um estudo bastante citado quando se quer demonstrar a importância da emoção do medo é o que foi empreendido pelos cientistas americanos Randolph Nesse e George Williams com determinada espécie de peixe. Os cientistas notaram que naquele grupo de peixes, todos da mesma espécie, podiam ser divisadas três tendências comportamentais em relação ao medo: um grupo de peixinhos mais corajosos e ousados, um segundo grupo de peixinhos mais cautelosos, porémcom grau de ansiedade normal, e um terceiro grupo de peixinhos francamente mais temerosos e ansiosos. Ao introduzirem uma carpa no hábitat dos peixinhos, um peixe maior e de hábitos predadores, os pesquisadores perceberam que os peixinhos corajosos reagiam encarando e vigiando o intruso, os tímidos reagiam se escondendo e os normais não faziam uma coisa nem outra, apenas se afastavam. Ao final de dois dias e meio, 40% dos peixinhos tímidos e 15% dos normais ainda sobreviviam. Dos ”corajosos” não sobrou nenhum para contar a história e passar seus genes adiante. Logo podemos entrever quais padrões de comportamento dessa espécie de peixe sobreviveriam em um hábitat compartilhado com vizinhos hostis.

Se quisermos transpor essa história para nossa própria espécie, imaginemos dois distantes antepassados nossos caminhando por uma selva, milhares de anos atrás. Eles podem estar fazendo uma ronda, pois alguns membros do grupo viram predadores. Enquanto caminham, percebem que as folhas de um arbusto próximo se movimentam suavemente. O menos ansioso dos dois pensará tratar-se de uma ação do vento, enquanto o mais ansioso imediatamente pensará na possibilidade de ser um predador escondido, ao que seu sistema nervoso responderá ativando as mudanças fisiológicas típicas da resposta de ansiedade: taquicardia, pupilas dilatadas, suor frio, entre outras. Essa resposta, também chamada de reação de luta e fuga, que explicaremos mais adiante, poderá fazer com que este indivíduo corra para proteger-se ou esconder-se.

Se tiver sido uma lufada de vento, tudo terá acabado bem e os dois voltarão para sua caverna. No entanto, se realmente havia um predador escondido ali, podemos bem imaginar qual dos dois sobreviveu para contar a história e, mais importante, viveu para passar seus genes adiante. Nesse caso, a característica da ansiedade foi fundamental para a sobrevivência desse indivíduo, característica esta que seus descendentes herdarão. E é dos sobreviventes de tempos imemoriais que a humanidade descende, que nós descendemos.

Talvez hoje essas características não sejam tão fundamentais para nosso dia-a-dia e muitas vezes nos causem transtornos e sofrimento, em especial para aquelas pessoas mais predispostas à ansiedade. Contudo, elas são imprescindíveis tanto para nossa manutenção física como para nossa convivência social. Em psiquiatria e psicologia, sabe-se muito bem que a ausência ou quase ausência de ansiedade está no cerne de graves desordens de personalidade, como a psicopatia (ou sociopatia), tornando essas pessoas perigosas para si mesmas e, principalmente, para os outros, uma vez que elas não sentem nenhum tipo de ansiedade ou angústia, na forma de arrependimento ou medo por seus atos praticados.

A função imediata da ansiedade é proteger-nos. Quando ficamos ansiosos, sofremos uma série de mudanças fisiológicas cuja finalidade é preparar-nos para uma situação de luta e fuga. Nosso coração passa a bater mais rapidamente, pois é necessário que o sangue seja bombeado com maior velocidade para os músculos. A respiração se torna mais rápida, para que possamos absorver maior quantidade de oxigênio e eliminar gás carbônico. Nossas pupilas se dilatam, para que nosso sentido da visão fique mais sensível. Sentimos nossas extremidades — pés e mãos — frias, já que todo o sangue se acumula nas partes centrais de nosso corpocom o fim primário de alimentar os grandes músculos e, secundariamente, evitar que percamos muito sangue caso soframos cortes e ferimentos nas extremidades, como é mais provável que aconteça. Frio também é nosso suor, para ajudar a equilibrar a temperatura do corpo e também torná-lo mais escorregadio, caso precisemos entrar em confronto corporal.

Do ponto de vista evolutivo, a reação de ansiedade é fantástica em sua complexidade e eficácia. E, assim como a ansiedade, várias outras características foram sendo desenvolvidas e selecionadas quando aumentavam a probabilidade de uma espécie adaptar-se a seu ambiente, sobreviver e multiplicar-se. Algumas dessas características podem ser tanto físicas, como desenvolvimento de membros, garras ou sentidos aguçados que auxiliem, na caça e na defesa, quanto comportamentais e psicológicas (no sentido de como o sistema nervoso processa as informações e responde a elas), como a preferência por certos tipos de alimento, a organização social e formas de comunicação entre membros da mesma espécie, que na humana atingiu um nível extremamente sofisticado e único: a linguagem.

Determinados comportamentos e medos típicos são tão universais e independentes da cultura que podemos concluir que já nascemos equipados com eles, como características que foram selecionadas por milhares de anos através da seleção natural e se fixaram como parte de nossa bagagem. Um deles é o medo do escuro. As pessoas podem até mentir, dizendo que não têm, ou podem tê-lo domado, enfrentando-o. Mas o fato é que todos sentimos esse medo. E, se alguém não o sentir, que não se vanglorie, pois é sinal de que há algo errado.

Nossos antepassados longínquos precisavam ter medo do escuro, pois não tê-lo podia significar a diferença entre morrer e viver em um mundo antigo em que ainda não domávamos o fogo, não havíamos evoluído à condição de Homo sapiens. Se pensarmos nos dois caçadores de novo e imaginarmos que um tinha medo de escuro e outro não, não precisamos refletir muito para perceber qual dos dois teria maior possibilidade de sobrevivência em um ambiente com predadores e perigos naturais.

Portanto, ainda hoje, quando nos levantamos para fazer xixi de madrugada, costumamos ir meio pé ante pé, às vezes olhando para os lados e sentindo um estranho desconforto, acompanhado da vontade de olhar para trás. Muitas pessoas até voltam do banheiro num passo mais ligeiro e acelerado e se jogam na cama. Muita gente chega mesmo a segurar a vontade de fazer xixi. Na infância esse medo é muito maior, pois a criança ainda não desenvolveu percepções necessárias para relativizar seu medo e diluí-lo em um contexto em que possa saber se está segura. Entretanto, mesmo entre os adultos esse medo persiste de modo bem suave, tornando-nos mais alertas e ansiosos quando falta luz, por exemplo. A ameaça de apagões em 2002 nos fez lembrarcom bastante clareza essa nossa condição evolutiva. Nunca se venderam tantas velas, lanternas, lamparinas, lampiões e geradores.

Hoje em dia não habitamos mais em florestas e campos nem temos predadores naturais (excetuando nós mesmos, mas isso é outra história). Porém o medo do escuro persiste e procuramos explicações para isso, atribuindo-o a outras circunstâncias, desde as implausíveis, como medo de ver fantasmas, até as infelizmente plausíveis (nos dias de hoje), como medo de ladrões, balas perdidas e até achadas, pois elas acham inocentes quase sempre.

Ultimamente, pesquisadores evolucionistas da área de psicologia e psiquiatria têm se debruçado sobre a questão dos transtornos da ansiedade (que incluem o TOC, o pânico e fobias, entre outros), vendo-os como desajustes de mecanismos naturais que, em seu funcionamento normal, possuem funções importantes e positivas. Dois psiquiatras britânicos, Riadh Abed e Karel de Pauw, engendraram uma interessante teoria que explica, sob a ótica evolucionista, a existência de pensamentos obsessivos e, por conseguinte, do TOC. O fato de a ocorrência de pensamentos obsessivos, em graus variados e por pelo menos determinado período da vida, ser universal e comum a todas as nacionalidades, culturas e classes sociais parece apoiar esse senso de que é uma característica da espécie humana, resultante de um mecanismo de adaptação que cumpre determinada função.

Para entendermos que função seria esta, precisamos rever rapidamente a função da ansiedade, que é nos proteger e nos colocar em condições de defesa ou de fuga diante de um perigo percebido, seja real, seja imaginário. Abed e Pauw chamam esta função da ansiedade de processo de redução de riscos (risk avoidance process) on-line. O on-line se refere ao imediatismo da situação. A ansiedade se apresenta como forma de evitação direta e imediata do risco. Haveria também um sistema off-line de redução de riscos, cuja função é gerar e prever possíveis cenários e situações potencialmente perigosos e, assim, evitá-los de antemão. Essa função mental ou cerebral seria o que os autores chamam de sistema involuntário de geração de cenários de risco, ou, no original, involuntary risk scenario generating system (IRSGS). Praticamente toda a humanidade possui essa função mental, e podemos percebê-la atuando quando olhamos atentamente antes de atravessar uma rua, entramos em um local desconhecido ou olhamos desconfiados para um alimento novo, por vezes cheirando-o ou tocando-o.

Essa também é uma função que foi e é vital para nossa sobrevivência e seria o que justamente vai mal nas pessoas que sofrem de TOC. Dizendo de outro modo, as pessoas com TOC sofrem por ter um IRSGS desregulado e superativado. Seus pensamentos obsessivos repetitivos seriam o resultado do descontrole dessa função mental, que causa em seu portador um comportamento intenso, contínuo e repetido de previsão e evitação de risco. Só de pensar que pode acontecer, o obsessivo já empreende rituais preventivos.

Abed e Pauw usam uma interessante metáfora para esse caso: o sistema imunológico. Nosso sistema imunológico, ao entrar em contatocom antígenos (substâncias e microorganismos estranhos ao nosso organismo que podem ser potencialmente perigosos), passa a gerar anticorpos específicos para combatê-los e prevenir a instalação de alguma doença. Similarmente, nosso sistema mental de geração e previsão de risco faz a mesma coisa, sendo que os antígenos seriam ambientes, circunstâncias e acontecimentos externos. Por outro lado, se nosso sistema imunológico está superativado e desregulado, ele passa a atacar o próprio organismo, causando as chamadas doenças auto-imunes. O TOC seria algo semelhante, em relação ao sistema de geração de riscos: uma doença auto-imune da mente, que aprisiona a pessoa numa falsa sensação de segurança e imunidade, mas infecta e entorpece toda a possibilidade de liberdade e felicidade, que trazem em sua mágica aceitar a vida do modo como ela é, incerta e insegura.


CAP 7

Tricotilomania e onicofagia

Lembram do Capitão Caverna? Coberto por aquela infinidade de pêlos desgrenhados e maltratados, com aspecto ”eletrizado”, certamente o Capitão Caverna não tinha tricotilomania, pois se tivesse enxergaríamos algumas falhas naquela ”maçaroca” toda.

A característica essencial da tricotilomania é o desejo ou impulso incontrolável de arrancar fios ou tufos de cabelo. Muitas vezes, esse comportamento pode se tornar tão automatizado que a pessoa age inadvertidamente, sem se aperceber dele. Pode se tornar tão grave a ponto de a pessoa ficar com extensas falhas no couro cabeludo ou até mesmo calva. Em geral quem sofre desse transtorno arranca fios do couro cabeludo, sobrancelhas ou cílios. Arrancar fios de outros locais, como barba e pêlos pubianos, são ocorrências bastante incomuns.

A atitude de arrancar fios em si já seria bastante estranha (e quem sofre de tricotilomania tem completa consciência da estranheza do próprio comportamento), mas, após arrancar os fios, muitas pessoas com esse transtorno ainda se engajam em comportamentos como alisar os fios, enrolando-os entre os dedos, passando-os por entre os lábios e brincando com eles de maneira geral. Mais raramente, algumas chegam a comer as raízes dos fios ou mesmo a engoli-los inteiros, o que pode até levar à necessidade de cirurgia para a retirada dos bolos de fios que se formam.

As pessoas que sofrem de tricotilomania relatam a sensação de impossibilidade de resistir ao impulso de arrancar os cabelos, precedido da sensação de ansiedade e tensão antes de começar a puxar os fios. Depois de arrancá-los, sentem alívio ou mesmo satisfação e se dedicam à manipulação dos fios.

Não se sabe ao certo o que causa a tricotilomania, mas certamente o fator biológico e hereditário é predominante, em razão de sua grande ocorrência em famílias em que um dos membros já teve TOC ou algum dos transtornos do espectro TOC.

Em geral a tricotilomania começa na infância ou na adolescência. Na prática clínica, temos notado que muitos adolescentes começam a puxar os cabelos assim que percebem que a qualidade e a cor dos fios mudaram em razão das alterações naturais da adolescência. Isso é mais comum entre as meninas, que dizem não se conformar que o cabelo tenha ficado mais grosso, mais ondulado ou mais escuro. Assim, algumas se esmeram em catar fios destoantes do resto do cabelo. Usam o tato para sentir a textura dos fios ou ficam observando no espelho até detectar fios não assentados, crespos oucom qualquer outra característica que fuja ao padrão por elas desejado.

O ato de puxar os fios costuma ser precedido de duas situações curiosamente opostas entre si: ou uma situação de aumento de estresse, que cause ansiedade e nervosismo, ou situações tranqüilas, de contemplação, em que a pessoa não tenha nada de imediato para fazer e fique pensando. Nestas últimas, com freqüência a pessoa começará a puxar fios distraidamente.

Esse problema ganha contornos dramáticos porque causa danos à auto-estima das pessoas e muitas vezes também à sua estética. É comum que deixem de sair de casa, passem a usar bonés e evitem ir à praia, piscina ou se dedicar a quaisquer outras atividades em que exponham as falhas do couro cabeludo.

O tratamento, prolongado e difícil, envolve a necessidade de ganhar maior controle sobre os próprios impulsos, o que sempre vem após bastante esforço e perseverança.

Outro transtorno muito semelhante é a onicofagia, ou seja, o ato de roer as unhas. A onicofagia também envolve morder e mastigar (e freqüentemente engolir) os cantos das unhas, onde se observam feridas, manchas de sangue ou mesmo as famosas ”casquinhas” (isso se a pessoa não as arrancar também e, fato mais incomum, mastigá-las). As características da onicofagia são praticamente iguais às da tricotilomania, ocorrendo nas mesmas situações e seguindo a mesma seqüência de impulso incontrolável, sensação de tensão e seu alívio.

O ato de mastigar ou engolir as lascas de unhas é mais raro, mas também é bastante prejudicial, pois eventualmente a cirurgia se fará necessária. E, no final das contas e pelo que observo, uma coisa é certa: a ”denticure” não é nem um pouco estética.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Definição de Vida

Fonte: WIKIPEDIA (http://pt.wikipedia.org/wiki/Vida)


Uma definição convencional-biológica
Por mais simples que possa parecer, ainda é muito difícil para os cientistas definirem vida com clareza. Muitos biólogos tentam a definir como um "fenômeno que anima a matéria".

De um modo geral, considera-se tradicionalmente que uma entidade é um ser vivo se exibe todos os seguintes fenômenos pelo menos uma vez durante a sua existência:

Crescimento, produção de novas células
Metabolismo, consumo, transformação e armazenamento de energia e massa; crescimento por absorção e reorganização de massa; excreção de desperdício.
Movimento, quer movimento próprio ou movimento interno.
Reprodução, a capacidade de gerar entidades semelhantes a si própria.
Resposta a estímulos, a capacidade de avaliar as propriedades do ambiente que a rodeia e de agir em resposta a determinadas condições.
Estes critérios têm a sua utilidade, mas a sua natureza díspar torna-os insatisfatórios sob mais que uma perspectiva; de facto, não é difícil encontrar contra-exemplos, bem como exemplos que requerem maior elaboração. Por exemplo, de acordo com os critérios citados, poder-se-ia dizer que:

O fungo tem vida (facilmente remediado pela adição do requisito de limitação espacial, ou seja, a presença de alguma estrutura que delimite a extensão espacial do ser vivo, como por exemplo a membrana celular, levantando, no entanto, novos problemas na definição de indivíduo em organismos como a maioria dos fungos e certas plantas herbáceas).
As estrelas também poderiam ser consideradas seres vivos, por motivos semelhantes aos do fungo.
Mulas e outros híbridos do tipo não são seres vivos, porque são estéreis e não se podem reproduzir, o mesmo se aplicando a humanos estéreis ou impotentes.
Vírus e afins não são seres vivos porque não crescem e não se conseguem reproduzir fora da célula hospedeira, mas muitos parasitas externos levantam problemas semelhantes.
Se nos limitarmos aos organismos terrestres, podem-se considerar alguns critérios adicionais:

Presença de componentes moleculares como hidratos de carbono, lípidios, proteínas e ácidos nucleicos.
Requisito de energia e matéria para manter o estado de vida.
Composição por uma ou mais células.
Manutenção de homeostase.
Capacidade de evoluir como espécie.
Toda a vida na Terra se baseia na química dos compostos de carbono, dita química orgânica. Alguns defendem que este deve ser o caso para todas as formas de vida possíveis no universo; outros descrevem esta posição como o chauvinismo do carbono.


[editar] Outras definições
A definição de vida de Francisco Varela e Humberto Maturana (amplamente usada por Lynn Margulis) é a de um sistema autopoiético (que se gera a si próprio) de base aquosa, limites lipoproteicos, metabolismo de carbono, replicação mediante ácidos nucleicos e regulação proteica, um sistema de retornos negativos inferiores subordinados a um retorno positivo superior J. theor. Biol. 2001

A definição de Tom Kinch é a de um sistema de auto-canibalismo altamente organizado naturalmente emergente de condições comuns em corpos planetários consistindo numa população de replicadores passíveis de mutação em redor dos quais evoluiu um organismo de metabolismo homeostático que protege os replicadores e os auxilia na sua reprodução.

Stuart Kauffman define-a como um agente ou sistema de agentes autónomos capazes de se reproduzir e de completar pelo menos um ciclo de trabalho termodinâmico.

A definição de Robert Pirsig pode ser encontrada no seu livro Lila: An Inquiry into Morals, como tudo o que maximiza o seu leque de possibilidades futuras, ou seja, tudo o que tome decisões que resultem num maior número de futuros possíveis, ou que mantenha o maior número de opções em aberto.

Um sistema que reduz localmente a entropia mediante um fluxo de energia.

Há possivelmente mais possibilidades de definição de vida, uma vez que se pode conceituá-la a partir do sentido que se atribui ao "viver".


[editar] Descendência modificada: uma característica útil
Uma característica útil sobre a qual se pode basear uma definição de vida é a da descendência modificada: a capacidade de uma dada forma de vida de gerar descendentes semelhantes aos progenitores, mas com a possibilidade de alguma variação devida ao acaso. A descendência modificada é por si própria suficiente para permitir a evolução, desde que a variação entre descendentes confira diferentes probabilidades de sobrevivência. Ao estudo desta forma de hereditariedade dá-se o nome de genética. Em todas as formas de vida conhecidas (excluindo os priões, que não são considerados seres vivos, mas incluindo vírus e viróides, que também não o são), o material genético consiste principalmente em DNA ou no outro ácido nucleico comum, RNA. Uma outra excepção pode ser o código de certas formas de vírus e programas informáticos criados através de programação genética, mas a questão de programas informáticos poderem ser considerados seres vivos, mesmo sob esta definição, é ainda um assunto controverso.


[editar] Excepções à definição comum
Muitos organismos são incapazes de se reproduzir e contudo são seres vivos, como as mulas e as formigas obreiras. No entanto, estas excepções podem ser levadas em consideração aplicando a definição de vida ao nível da espécie ou do gene individual (ver selecção por parentesco para mais informação acerca de como indivíduos não-reprodutivos podem aumentar a dispersão dos seus genes e a sobrevivência da sua espécie).

Quanto aos dois casos do fogo e das estrelas encaixarem na definição de vida, ambos podem ser facilmente remediados definindo metabolismo de uma forma bioquimicamente mais precisa. No seu Fundamentals of Biochemistry (ISBN 0471586501), Donald e Judith Voet definem metabolismo da seguinte maneira:

Metabolismo é o processo geral pelo qual os sistemas vivos adquirem e utilizam a energia livre de que necessitam para desempenhar as suas várias funções. Fazem-no combinando as reacções exoérgicas da oxidação de nutrientes com os processos endoérgicos necessários para a manutenção do estado vivo, tais como a realização de trabalho mecânico, o transporte activo de moléculas contra gradientes de concentração, e a biossíntese de moléculas complexas.

Esta definição, usada pela maioria dos bioquímicos, torna claro que o fogo não está vivo, pois liberta toda a energia oxidativa do seu combustível sob a forma de calor.

Os vírus reproduzem-se, as chamas crescem, as máquinas movem-se, alguns programas informáticos sofrem mutações e evoluem e, no futuro, provavelmente exibirão comportamentos de elevada complexidade. Por outro lado, na origem da vida, células com metabolismo mas sem sistema reprodutivo podem ter existido. No entanto, muitos não considerariam estas entidades seres vivos. Geralmente, todas as cinco características devem estar presentes para que um ser seja considerado vivo.


[editar] Origem da vida
Ver artigo principal: Origem da vida

A origem da vida levanta questões científicas, religiosas e filosóficasNão existe ainda nenhum modelo consensual para a origem da vida, mas a maioria dos modelos atualmente aceites baseiam-se duma forma ou doutra nas seguintes descobertas:

Condições pré-bióticas plausíveis resultam na criação das moléculas orgânicas mais simples, como demonstrado pela experiência de Urey-Miller.
Fosfolípidos formam espontaneamente duplas camadas, a estrutura básica da membrana celular.
Processos para a produção aleatória de moléculas de RNA podem produzir ribozimas capazes de se replicarem sob determinadas condições.
Existem muitas hipóteses diferentes no que respeita ao caminho percorrido das moléculas orgânicas simples às protocélulas e ao metabolismo. A maioria das possibilidades tendem quer para a primazia dos genes quer para a primazia do metabolismo; uma tendência recente avança modelos híbridos que combinam aspectos de ambas as abordagens.


[editar] A possibilidade de vida extraterrestre
Ver: Vida extraterrestre, Astrobiologia

Até a data, a Terra é o único planeta do universo conhecido por humanos a sustentar vida. A questão da existência da vida noutros locais do universo permanece em aberto, mas análises como a equação de Drake têm sido usadas para estimar a probabilidade dela existir. Das inúmeras reivindicações de descoberta de vida noutros locais do universo, nenhuma sobreviveu ao escrutínio científico.

O mais próximo que a ciência moderna chegou de descobrir vida extraterrestre é a evidência fóssil de possível vida bacteriana em Marte (por via do meteorito ALH84001). A procura de vida extraterrestre centra-se actualmente em planetas e luas que se crê possuírem ou terem possuído água no estado líquido. Dados recentes dos veículos da NASA Spirit e Opportunity apoiam a teoria de que Marte teve no passado água à superfície (ver Vida em Marte para mais detalhes). As luas de Júpiter são também consideradas bons candidatos para albergarem vida extraterrestre, especialmente Europa, que parece ter oceanos de água liquida. Fora do sistema solar, o único planeta descoberto até agora potencialmente habitável é Gliese 581 c.


[editar] Referências
↑ MOORE, K. L.; PERSAUD, T.V.N. Embriologia Clínica. 7 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.




[editar] Ver também
Vida artificial
Ciclo de vida
Movimentos pró-vida
Vida humana
Sentido da vida